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Classes de seres

O Jornal da Tarde de Salvador publicou interessante artigo do pesquisador do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, José Vicente da Silva Filho. O artigo Pessoas, indivíduos e elementos faz uma criativa e oportuna diferença entre essas três "classes de seres". Pessoa, segundo Josë Vicente, são aqueles membros de nossa sociedade titulares da primeira classe da cidadania, detendo todos os direitos comuns e alguns especiais exclusivos. Para as pessoas não existem filas, espera, burocracia, mas existem imunidades, tribunais especiais e toda blindagem legal. Existe também os indivíduos, que são aqueles que precisam lutar para usufruir seus direitos. São os subcidadãos, a manada. Não possuem rosto e quando aparecem nos meios de comunicação, apenas surgem como dados estatísticos. São lembrados, mas em ocasião de eleição, por exemplo. Ou quando é preciso economizar energia. Há ainda a categoria dos elementos, que, para o prof. José Vicente, são aqueles que perderam todos os seus direitos por decisão de algumas pessoas ou indivíduos. São alvos do exercício do poder e da força. Seu aspecto físico brutalmente os diferenciam das pessoas e dos indivíduos. São os excluídos da sociedade. Por ser coronel da reserva da PM, o prof. José Vicente aplica o artigo especialmente ao âmbito policial, mas suas conclusões podem ser bem aplicadas ao cotidiano de nossa sociedade brasileira, onde impera o chavão que o antropólogo Roberto Da Matta (também citado no artigo) nos ensina - você sabe com quem está falando? Dizemos que aqui a isonomia torna todos iguais, mas na prática a nossa sociedade considera alguns mais iguais do que os outros. Parabéns prof. José Vicente por excelente artigo.
A ilha de Pascoa

Duas pessoas de cada vez sobem ao topo do "sendero" --trilha, em espanhol. À esquerda, uma imensa cratera de 1,6 km de diâmetro do vulcão Rano Kau se abre diante dos forasteiros. A cavidade foi preenchida pela água da chuva, que formou lagoas rodeadas por plantas que só existem ali. À direita, um penhasco se junta à imensidão azul do Pacífico. A cerca de 3.700 km da costa sul-americana, a ilha de Páscoa parece flutuar no meio do mar.

Nos arredores do vulcão, lugar chamado Orongo, os antigos rapanui (nome que era dado aos nativos e seu idioma antes da colonização) instalaram a aldeia cerimonial mais importante de Páscoa, onde cultivaram entre os séculos 11 e 17 o mito do homem-pássaro, ritual de forte conotação de fertilidade e poder. Reza a lenda que líderes dos principais clãs nadavam até uma pequena ilha chamada Motu Nui à espera de um lendário pássaro, o manutara. Quem primeiro conseguisse transportar um ovo intacto até essa parte da ilha convertia-se em chefe do clã. A etapa seguinte era raspar o cabelo e pintar de branco a cabeça do homem-pássaro, que assumiria a liderança entre os nativos por um ano.

Hoje, os pássaros que dão as caras por lá são aves marinhas em fluxo migratório. O lugar, porém, continua a exercer um certo magnetismo, só que desta vez enfeitiçando turistas do mundo inteiro, que se isolam horas a mirar o infinito do Pacífico.

Essa prática insular é recorrente entre os exploradores de Páscoa, ilha considerada --até mesmo a olhos céticos-- a mais misteriosa do planeta. No meio do caminho entre o Chile e a Polinésia Francesa, tal distanciamento geográfico e cultural lhe imprimiu uma característica quase autóctone, o que levou seus moradores originais a chamarem Páscoa de Te Pito o Te Henua --em português, "umbigo do mundo".

Triangular, formada por três vulcões com idade estimada entre 3 milhões e 300 mil anos, a ilha de Páscoa tem em Hanga Roa seu centro habitado, onde estão os estabelecimentos comerciais, de hotéis a restaurantes, dos poucos bares a posto do correio, banco e o aeroporto Mataveri. É no povoado arborizado, pacato e de poucas atrações onde vivem quase todos os cerca de 3.500 habitantes, basicamente à custa do turismo.

Mas, afinal, o que esperar de uma viagem a um lugar tão distante no meio do nada?

Templo de pedra

A ilha de Páscoa ganhou esse nome por ter sido "descoberta" pelo navegador holandês Jacob Roggeveen, no domingo de Páscoa de 1722. Desde o fim do século 19, pertence ao Chile.

Quem vai para lá está mesmo atrás dos moais, as estátuas monolíticas de até 20 m de altura, feitas com rocha vulcânica, que ainda hoje desafiam as explicações de arqueólogos e antropólogos. Únicas no mundo, são elas as vedetes de Páscoa.

O que ninguém sabe explicar ao certo é como um povo da Idade da Pedra, sem contato com outras culturas ou influências, conseguiu desenvolver tal técnica de criação. Alinhados de costas para o oceano, há cerca de 900 moais espalhados por toda a extensão da ilha, em meio a altares de veneração chamados ahus, plataformas de até 60 m de comprimento e 7 m de altura que agrupam as esculturas. O maior dos ahus é o Tongariki, com 15 estátuas.

Sabe-se que todos os moais eram dedicados ao culto dos mortos e representavam reis, sacerdotes e guerreiros. Eram uma forma de devoção e expressão artística dos antigos rapanui.

Não espere encontrar em Páscoa uma vegetação típica de floresta tropical. Uma das mais fortes teorias sustenta a tese de que a ilha talvez tenha sido um paraíso com matas, aves e golfinhos até o ano 900, quando os primeiros habitantes chegaram por lá. Setecentos anos e cerca de 15 mil habitantes depois, todas as árvores haviam sido cortadas e usadas principalmente no transporte das estátuas.

O ritmo da devastação humana superou a capacidade natural de reposição, provavelmente em conseqüência da obsessão em que se transformou a criação dos moais. Sem árvores, como construir canoas para a pesca? Onde os pássaros se alimentariam e fariam seus ninhos?

Análises de restos de alimento acumulado por diferentes gerações revelam avanço da fome a partir de 1400. A história de Rapa Nui --"ilha grande", no antigo idioma nativo- teria se interrompido em 1862. Não bastasse a escassez de comida, guerras foram deflagradas entre as tribos, colaborando para o extermínio. Lentamente, a população foi se recuperando. Hoje, acredita-se que 70% dos cerca de 3.500 habitantes da ilha sejam continentales (chilenos), contra 30% de pascoenses ou mestiços.

Em "flashback", histórias são narradas pelos guias durante as visitas aos sítios arqueológicos. Quem se cansar delas pode sair à caça das belas praias da ilha, como a pequena enseada de Ovahe, de areia rosada, ou Anakena, decorada por moais em boa definição de traços.

Olhando para as lagoas da cratera do vulcão Rano Kau ou mirando a imensidão sem fim do Pacífico, uma coisa é certa: estar em Páscoa é ficar longe de tudo, perto de ninguém e mais próximo de si.

O que é um clone?

Quando ouvimos falar em clonagem, a primeira coisa que nos vêm em mente é Dolly, a ovelha clonada a partir das células de um indivíduo adulto. A clonagem, entretanto, não se refere apenas ao método aplicado no caso de Dolly. Podemos clonar, ou gerar "cópias", de genes, células, tecidos, órgãos e plantas. A palavra clone deriva do grego Klón, o broto da planta que quando quebrada pode se desenvolver como a planta-mãe. Para os microbiólogos, por exemplo, o termo clone se aplica a uma população de microorganismos geneticamente idênticos. Nos animais, inclusive no homem, ocorre um processo de clonagem natural que leva a formação de gêmeos "idênticos." Isto se dá quando o embrião, nos estágios iniciais de seu desenvolvimento, sofre uma divisão natural, originando dois ou mais indivíduos "geneticamente iguais."
Sabemos que a maioria dos organismos, com excessão dos assexuados, se desenvolvem a partir da união de um indivíduo do sexo masculino, com outro do sexo feminino. Um espermatozóide que contém n cromossomos, irá fecundar um óvulo também com n cromossomos, formando um indivíduo com 2n cromossomos. Entretanto, na clonagem artificial (o caso de Dolly), não ocorre a fecundação do óvulo pelo espermatozóide para formar um novo indivíduo. Neste procedimento o novo indivíduo, será criado a partir da célula somática (2n cromossomos) do indivíduo original, portanto, com os mesmos genes deste, daí ser considerado a sua "cópia".
Devemos lembrar também que existe uma idéia muito difundida, porém errada, de que o clone é uma cópia idêntica de seu original. Sabemos que todo indivíduo é resultado das interações entre o seu genótipo e o seu ambiente. O clone de qualquer indivíduo, apesar de conter o "mesmo" material genético do original, não será idêntico a este último, pois vai sofrer influências ambientais diversas, que poderão acarretar diferenças fenotípicas entre os dois. Isto é válido tanto no caso de Dolly, em que o original desenvolveu-se num período de tempo anterior ao clone, quanto no caso de gêmeos idênticos (clones naturais). Um bom exemplo relacionado a este fenômeno é o caso de Cedric, Cecil, Cyril e Tuppence, quatro carneirinhos da raça Dorset que foram clonados pela equipe de Ian Wilmut e Keith Campbell, a mesma que clonou Dolly e Polly. Estes quatro carneiros são geneticamente idênticos, porém diferem em tamanho e temperamento, o que pode significar que os genes sozinhos não determinam todos os caracteres físicos e comportamentais de um organismo, eles estão em diálogo constante com o ambiente, interagindo com o mesmo.
As técnicas
Os famosos casos das ovelhas, Dolly, e, Megan e Morag, estão relacionados a uma técnica de clonagem chamada de transplante nuclear, desenvolvida pela equipe de Ian Wilmut e Keith Campbell no Instituto Roslin em Edimburgo, Escócia. Este procedimento envolve duas células: a célula recipiente e a célula doadora. A célula recipiente, normalmente é um ovo não fertilizado retirado da ovelha, logo após a ovulação. A célula doadora com todo o seu material genético diplóide, é aquela que será copiada (clonada). Está célula pode ser retirada a partir de um embrião, ou de um animal adulto. O primeiro passo é esvaziar a célula recipiente de seu material genético, ou seja, retira-se, com uma micropipeta, os cromossomos do núcleo desta célula. Em seguida, será realizada a fusão da célula doadora com a célula recipiente esvaziada. Esta fusão é feita com o auxílio de descargas elétricas definidas e seqüenciadas. O embrião formado será, então, colocado num meio de cultura durante, mais ou menos, uma semana. Dando-se o desenvolvimento do embrião, este será implantado no útero de uma terceira ovelha, onde continuará a se desenvolver até ser parido por sua "mãe de aluguel". A diferença entre o caso de Megan e Morag e o caso de Dolly, é que no primeiro a célula doadora foi retirada de um embrião com a idade de nove dias, e no caso de Dolly a célula doadora foi retirada de um animal adulto, porém nos dois casos estas células já apresentavam o grau considerável de diferenciação. Este fato poderia ser um empecilho para o sucesso das clonagens se não fosse uma inovação introduzida em Roslin, como veremos mais adiante.
A técnica da transferência nuclear, ou, transplante nuclear, já vinha sendo desenvolvida desde a década de 1980, tanto na Europa como na América do Norte. O primeiro cientista a clonar com sucesso ovelhas, usando esta técnica, foi o Dinamarquês Steen Willadsen. A nova técnica desenvolvida em Roslin graças aos conhecimentos de Keith Campbell sobre o ciclo celular, apresentava, entretanto, uma novidade que, segundo os "pais" de Dolly, foi revolucionária em relação as técnicas anteriores. Agora já se sabia que o núcleo doador, se fosse transferido na fase G0 (quiescente) da sua mitose, estaria mais apto a ser reprogramado e assim recuperar a sua totipotência, permitindo ao novo zigoto se diferenciar nos mais diversos tecidos e órgãos, ao longo do seu desenvolvimento embrionário. Este era o empecilho maior que tornava a clonagem pela transferência nuclear uma tarefa muito difícil; ou seja, na técnica antiga os pesquisadores estavam mais preocupados em obter um núcleo doador que ainda não tivesse se diferenciado o bastante, a ponto de perder a sua totipotência. Na maioria das vezes isto era impossível, o que malograva as tentativas de clonagem por este método, apesar dos poucos sucessos. A despeito da importância da quiescência para o sucesso do desenvolvimento do clone, estudos mais recentes tem demonstrado que o fato da célula estar nesta fase do seu ciclo, talvez não seja o único fator importante para o sucesso do desenvolvimento do clone.
Outra técnica desenvolvida por Wilmut e sua equipe, mistura o transplante nuclear com a transgênese. Nesta técnica o gene de interesse é adicionado ao genoma de uma célua, que será a célula doadora no processo de clonagem. O primeiro animal produzido com esta técnica foi a ovelha Polly, clonada a partir de uma célula doadora que recebeu o gene para o fator IX humano, uma proteína do sangue usada no tratamento da hemofilia B. As glândulas mamárias desta ovelha secretam proteínas humanas juntamente com o seu leite. A conjunção destas duas técnicas permitiria a produção de múltiplos indivíduos transgênicos, ou seja, clones que carregam a mesma alteração genética.
Segundo o próprio Ian Wilmut, entretanto, a técnica da transferência nuclear tem suas limitações e, ainda, não é totalmente eficiente. É importante saber que no experimento de Dolly, esta foi a única sobrevivente viável, dentre duzentos e setenta e sete possíveis clones de ovelhas. "Todos os experimentos com clonagem descritos até agora, mostram um padrão consistente de mortalidade durante o desenvolvimento fetal e embrionário, na ordem de um à dois por cento de embriões que conseguem sobreviver e se desenvolver. Infelizmente, mesmo alguns dos clones que sobreviveram até o nascimento morreram logo depois...As causas dessas mortes permanecem desconhecidas, mas isto pode refletir a complexidade de uma reprogramação genética necessária para que uma prole saudável seja produzida. Mesmo se um gene se expressa de maneira inapropriada, ou, falha para expressar uma proteína importante, o resultado pode ser fatal. Uma reprogramação pode envolver a regulação de milhares de genes num processo que pode incorporar fatores aleatórios." Conclui Wilmut.
Clonar Humanos?
Com o sucesso da clonagem animal, começaram a surgir os esperados rumores e preocupações sobre a possibilidade de clonar seres humanos. É natural este tipo de reação por parte da sociedade, sempre que os avanços da biotecnologia ameaçam mudar a ordem natural das coisas. Manipular o desenvolvimento de um ser humano, desvendar todos os nossos segredos escondidos nos genes, ou alterar a natureza genética de plantas e animais; tudo isso, de certa maneira, agride nossas mais profundas crenças em um mundo onde as leis naturais, ou as leis de Deus, não devem sofrer a interferência humana.
No caso da clonagem humana, existe um sentimento negativo por parte da sociedade como um todo. Como escreveu James Q. Wilson, "Há um sentimento natural de indignação pela idéia de que bebês idênticos estariam sendo fabricados em série." Outras vezes surgem boatos sobre idéias fantasiosas como, clonar grandes personalidades das Ciências e das Artes, ou, mesmo, criar um "exército de Hitleres". Devemos salientar que apesar do sucesso de alguns experimentos em animais, a maior parte da comunidade científica acha que a aplicação de tal técnica seria inadmissível à seres humanos, pois, além das dificuldades práticas (mencionadas, anteriormente, pelo próprio Wilmut), surgiriam barreiras éticas, morais e legais, as quais dificilmente seriam sobrepujadas. Por outro lado, sabe-se que este tipo de experimento, tanto nos EUA como na Grã-Bretanha e em muitas outras nações, não é explicitamente ilegal, e as técnicas e equipamentos necessários para tanto, são muito comuns nos grandes laboratórios de biologia. Pesquisadores do Oregon Regional Primate Center, em Beaverton, EUA, anunciaram que conseguiram clonar macacos a partir de células embrionárias. Desta maneira, a já dominada técnica de fertilização humana in vitro, necessitaria de um modesto investimento extra, para incorporar a tecnologia da clonagem em humanos.
Na verdade não sabemos até que ponto irão chegar as conseqüências advindas desta tecnologia, haja visto o desenvolvimento, cada vez mais rápido, da ciência, nestes últimos trinta anos. Da mesma maneira que todas as outras inovações tecnológicas e biotecnológicas, as recentes "revoluções" na biotecnologia também poderão resultar numa mudança de comportamento da sociedade com relação as implicações éticas e morais resultantes desses progressos. Apesar da possibilidade de clonar humanos ainda ser muito remota (os próprios pesquisadores escocêses deixaram claro que seria anti-ético adaptar suas técnicas para a clonagem de humanos), se faz necessário, entretanto, que a sociedade esteja à par de todos estes desenvolvimentos e de suas conseqüências, com a criação de fóruns públicos, e comissões de estudos éticos relacionados a estes problemas.
A Clonagem no Brasil
No dia 21 de março o Ministro da Agricultura e do Abastecimento, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, anunciou em Brasília, o nascimento do primeiro animal clonado brasileiro, a bezerra Vitória da raça Simental, nascida na Fazenda Sucupira, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária- Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura. As pesquisas em reprodução animal na Embrapa começaram em 1984, e são o resultado da tecnologia de transferência nuclear, a bezerra Vitória é resultado de núcleos transferidos de um embrião de cinco dias coletado de uma vaca Simental pela técnica de transferência de embriões clássica. Esta técnica é semelhante aquela usada na clonagem de Megan e Morag, onde uma célula é enucleada (célula recipiente) e depois fusionada com a célula doadora retirada de um embrião.
De acordo com a Embrapa, "...este é o primeiro passo para que o Brasil domine completamente essa tecnologia e constitua a base da aplicação prática da transferência nuclear nos programas de conservação e melhoramento animal. Estudos de simulação demonstram que a combinação da clonagem com as demais técnicas de multiplicação animal permitirá obter, em um ano, o ganho genético equivalente a 12 anos de seleção e multiplicação pelos métodos tradicionais. Para o diretor-presidente da Embrapa, Alberto Duque Portugal, o domínio da tecnologia de clonagem animal
pelo Brasil possibilitará a reprodução acelerada de animais geneticamente superiores, a evolução de pesquisas de transgenia animal e também a reprodução de raças de animais ameaçadas de extinção no território nacional."
A IDADE DA DOLLY
Qual a idade da Dolly? A pergunta pode parecer apenas curiosidade mas tem sua importância determinada pelo crescente direcionamento dos experimentos de clonagem. Qualquer que seja a aplicação da clonagem de animais ou seres humanos, a longevidade do indivíduo clonado é uma questão que deve ser esclarecida a priori.
A Dolly teria o número de anos complementares aos do indivíduo que lhe deu origem? Ou seja, se uma ovelha vive 15 anos e aquela de onde foi retirada a célula que deu origem à Dolly já tinha, por exemplo, 7 anos, então Dolly teria ainda 8 anos de vida.
Por outro lado, Dolly foi um embrião, que teve um período de gestação normal e passou, até agora, por todos os períodos de desenvolvimento no seu tempo e seqüência normais. Logo, por que não deveria viver o mesmo número de anos que uma ovelha normal, isto é, 15 anos?
Esses raciocínios, apesar de lógicos podem não corresponder à realidade. O que determina a longevidade de um organismo? Certamente fatores genéticos e ambientais. É preciso reconhecer que um organismo envelhece porque suas células envelhecem, isto é, cessam os processos de divisão e elas começam a morrer. Estes eventos são específicos para cada tipo celular. Os neurônios, por exemplo, são células que não se dividem após a vida embrionária porém não morrem com freqüência. Por outro lado, células epiteliais se dividem com freqüência mas têm uma vida média de algumas semanas. Os estímulos que levam uma célula a morrer nessas condições ainda são pouco conhecidos porém sabe-se, desde a década de 70, que os telômeros estão envolvidos com o número de divisões que uma célula é capaz de realizar.
Telômeros correspondem às extremidades do cromossomo. Eles são constituídos por seqüências repetidas in tandem que conferem ao cromossomo uma certa estabilidade. Cromossomos que perderam os seus telômeros têm uma tendência a se ligarem a outros cromossomos ou então a degenerarem. A cada divisão celular, entretanto, partes dos telômeros vão sendo perdidas e ao longo do tempo, os telômeros vão encolhendo. Existe um limite a partir do qual a célula deixa de se dividir, provavelmente para preservar o resto de telômero que ainda existe nos seus cromossomos. Observou-se que algumas linhagens celulares imortais, isto é, que nunca param de se dividir, como as células do testículo humano e células cancerosas, possuem uma enzima, chamada telomerase, que repõe os fragmentos teloméricos perdidos durante a replicação. Observou-se que o telômero de células cancerosas não é maior que o de células normais, apenas ele é estável, ou seja, não diminui durante os ciclos de replicação, ou melhor, diminui mas é reconstituído pela telomerase. O gene para telomerase está presente em todas as células humanas mas na maioria delas ele não é expresso.
O tamanho da região telomérica é controlado pela atividade da telomerase e indica quantos ciclos de replicação uma célula ainda tem. A atividade da telomerase varia durante as fases de desenvolvimento do indivíduo, sendo expressa por mais tempo em alguns tecidos do que em outros e, em determinados casos, por toda a vida. O tamanho dos telômeros e a atividade telomerásica ainda podem estar relacionados aos eventos de morte celular programada (apoptose), no qual linhagens celulares morrem em certas fases do desenvolvimento para dar origem a novas células.
Assim, pode-se imaginar que em um zigoto o tamanho dos telômeros é máximo e a atividade da telomerase é capaz de mantê-los assim até um certo estágio do desenvolvimento. À medida que iniciam os processos de diferenciação celular, há uma modulação da atividade telomerásica, de modo que após o nascimento apenas alguns tecidos continuam a expressá-la. Da mesma forma, o tamanho dos telômeros também varia entre cada tecido, originando um número potencial de divisões que cada um deles terá ao longo da vida.
Portanto a resposta para a pergunta inicial está no tamanho dos telômeros da célula que originou a Dolly. Aquela célula de glândula mamária retirada de uma ovelha adulta tinha potencial para quantos ciclos de replicação? Ao sofrer um processo de desdiferenciação e voltar ao estágio de zigoto, esta célula recuperou a sua atividade telomerásica. Porém provavelmente não foi capaz de repor as porções de telômero que já haviam sido perdidas nos seus ciclos de divisão anteriores. Dessa forma, o tamanho inicial dos telômeros não foi máximo e não há como garantir que esse indivíduo terá uma longevidade normal. Devido às características peculiares do seu desenvolvimento é possível inclusive que Dolly apresente um processo de senescência acelerado pois o envelhecimento é um aspecto do desenvolvimento, que além de envolver mecanismos multifatoriais, está sujeito a mecanismos extremamente precisos de regulação gênica. Afinal, os genes homeóticos, responsáveis pela coordenação dos processos de desenvolvimento, foram reativados e não se sabe que conseqüências isso poderá ter, ainda que tenha originado um organismo fenotipicamente normal.
O acompanhamento da Dolly permitirá o esclarecimento de várias questões que devem ser levadas em conta quando se pensa no uso da clonagem para criação de rebanhos e no caso da clonagem de seres humanos, não considerando os aspectos éticos deste tipo de experimento. Do ponto de vista da genética do desenvolvimento este tipo de experimento oferece uma possibilidade única de estudar os mecanismos de controle da diferenciação celular, demonstrando como um indivíduo altamente diferenciado pode se originar de uma única célula. Também pode ser de grande utilidade para estudos sobre regeneração, em que se poderia tornar um grupo de células novamente indiferenciadas e totipotentes no sentido de recompor um membro ou órgão perdido, por exemplo. Além disso, estudos sobre as alterações do controle da expressão gênica resultantes de extensos ciclos de replicação pode contribuir para explicar algumas modificações nas vias de desenvolvimento observadas em células cancerosas.
Atualmente existem evidências de que o processo de envelheciemnto da Dolly é realmente alterado, pois verificam-se sinais de envelhecimento precoce.