Carta do Capitão-de-Mar-e-Guerra (Ref) José Maria Barreira da Fonseca, que, segundo ele, representa "uma homenagem a um grande navio e a companheiros e amigos que nele serviram no período de 1971/72".
          Na terrivel guerra do Pacifico, CL49 "Saint Louis" e seu bravo comandante, CMG USN George Arthur Rood, mostram o caminho, a determinação, para, a partir de hora sombria, começar a perseguir a vitória.
           Em 7 de dezembro de 1941, saindo incólume da ratoeira em que se transformara Pearl Harbour, sob ataque aéreo de surpresa dos japoneses, contornando cascos calcinados, encouraçados soçobrados e em chamas, desviando-se de torpedos lançados por mini submarinos, que espreitavam à saída do molhe, abatendo dois aviões inimigos e atirando sem descanso contra os atacantes, neste momento de confusão e perplexidade, nasceu o feito épico - a primeira manifestação de firme vontade de enfrentar e derrotar o inimigo, partida da nação americana.
          Foi seu porta-voz, o bravo Capitão Rood, e seu instrumento, o CL49 "Saint Louis" e algumas pequenas embarcações que tinham conseguido esgueirar-se do porto em chamas.Como comandante mais antigo presente dos navios e embarcações em condições de operar, transmitiu a mensagem histórica: "Formar comigo para buscar e destruir o inimigo".
          Organiza-se, assim, a primeira Força-Tarefa da Marinha Americana após a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, capitaneada pelo CL49 "Saint Louis".
          O inimigo a quem buscava - e nisso estava a grandeza do ato - era, nada mais, nada menos, que o poderoso Grupo de Ataque da Frota Combinada, comandado pelo Almirante Nagumo, composto de 6 porta-aviões, 2 encouraçados, 2 cruzadores pesados e 16 destróieres!
          Nessa operação o CL49 "Saint Louis" e as pequenas embarcações que o seguiam permaneceram no mar, dominados pelo inimigo, durante 3 dias.
A operação que se mostrava suicida, teve o significado do piscar de um farol para o nauta até então perdido em noite negra e tempestuosa.
          Este alicerce de ousadia e inconformismo corn a derrota foi um dos pilares, possivelmente pouco conhecido, em que se apoiou a formidável reação da nação americana, que tempos depois, levou a portentosa Força-Tarefa 58 a desfilar por mares antes só não interditos às forças japonesas até a vitória final, quando no convés do CL49 "Saint Louis", foi assinada a rendição das tropas japonesas que ocupavam Formosa.
          Durante os longos anos de guerra, sua atividade foi intensa, tomando parte em inúmeras operações de combate, ganhando 11 estrelas de batalha ( battle stars) e três citações da Marinha (Navy Unit Citations).
          Pelas insólitas situações que enfrentou em face do inimigo, ora sob a forma de ataques pela artilharia de navios e de baterias costeiras, torpedeado por submarino e atingido por um Kamikase, sempre restando flutuando e com pequenas baixas, foi chamado pelo Departamento da Marinha Americana de navio inafundável e batizadocarinhosamente,"Lucky Lou".
          Após a guerra o cruzador passou para a Esquadra da Reserva dos EUA, ocasião em que foi adquirido pelo governo brasileiro, juntamente com o CL41 "Philadelphia", o nosso CL-11 "Barroso".
Ganhou ,então, uma nova pátria, tendo sido incorporado à Marinha do Brasil em 1952, com o nome de Almirante Tamandaré, patrono da nossa Marinha. Posteriormente, o nome do cruzador, foi simplificado para "Tamandaré".
          Seu primeiro comandante, que o recebeu, foi mais tarde Ministro da Marinha, Paulo Bosísio, oficial competente, rigoroso, de quem tive a honra de ser oficial-de-gabinete. O então Comandante Bosísio trouxe o navio em magnificas condições, estado em que foi mantido, levando-se em consideração o natural desgaste provocado pelo tempo, durante os 23 anos em que serviu à Marinha Brasileira, pelas suas sucessivas guarnições.
          Na Marinha Brasileira, operando em período de paz, tambem fez história, reconhecido como navio bafejado pela sorte, saindo ileso, graças às manobras oportunas e precisas, em águas restritas, do seu então Comandante, o Capitão-de-Mar-e-Guerra Silvio Heck quando bombardeado por três fortalezas, envolvidos nas malhas de incidente político ocorrido em1955.
          De 1953 a 1975, quando de sua baixa do serviço ativo, serviu de valioso instrumento de adestramento de inúmeras turmas de oficiais e praças. Navio dotado de uma mística incomum, olhado com respeito e curiosidade por suas façanhas guerreiras, incutia naqueles que pisavam seu convés, um sentimento de orgulho, que contribuia de alguma forma, e ainda que passageiramente, da trama de uma bela história.
          Eram personagens, da saga do CL49 "Saint Louis"/CL-12 "Tamandaré".Os tipos e fatos incomuns mantém-se vivos nos anais da História. Assim vem acontecendo com o CL49 "Saint Louis"/CL-12 "Tamandaré".
          Continuam vivos seus feitos e suas glórias, rememorados através da USS "Saint Louis"(CL-49) Association, com sede em Nova York, e do jornal (Lucky Lou Ship's Newspaper)Hubbie-Bubble, fundado a bordo em 15 de abril de 1942, durante uma patrulha de guerra noPacífico.
          Essa perenidade, varando o tempo, ainda não faz muito, foi comprovada, conforme registrado no Hubble-Bubble.
Em 1982, quarenta anos após o dia inesquecível do ataque a Pearl Harbour, três eventos relembraram o CL49 "Saint Louis".
          No dia 6 de dezembro daquele ano foi içada na Academia Naval de Anápolis, por uma guarda de honra dos fuzileiros navais, a bandeira nacional americana do CL49 "Saint Louis" em homenagem ao próprio navio e ao seu comandante quando do ataque àquele porto, George Arthur Rood.
Presentes ao ato várias personalidades e familiares daquele oficial.
          A bandeira permaneceu flutuando durante a cerimônia de entrega ao museu daquela Academia do quadro pintado por George Sampson, que reproduz a saída do 'Saint Louis", sob fogo em Pearl Harbour.
          Este quadro leva o nome sugestivo de "Coming out of hell."Às três horas da tarde do mesmo dia, the holiday colors, a bandeira de maiores proporções hasteada por navios de guerra, presenteada à "Saint Louis" Association pelo LKA-116 "Saint Louis", que herdara o nome ilustre, foi içada no edifício do Capitólio, em Washington, ali permanecendo durante o periodo de tempo em que durou o ataque a Pearl Harbour.
          E ainda no dia seguinte, 7 de dezembro, representantes da "Saint Louis Association" compareceram ao túmulo do Almirante George Rood, que teve a honra de ser sepultado no Cemitério Nacional de Arlington, local reservado ao descanso dos heróis americanos.
          A mística do "Saint Louis"/"Tamandaré", atravessou oceanos e fronteiras, e sua aura de navio corajoso e sortudo continua a viver no espírito de todos os que tiveram o privilégio de guamecê-lo.
          No Brasil, onde serviu com galhardia à Marinha de Guerra durante 23 anos bem navegados, percorrendo mais de 220.000 milhas em continuos exercícios de adestramento, seus ex-tripulantes acompanham as atividades da "Saint Louis" Association" informando-se, pelos depoimentos dos homens da US Navy através do Hubble-Bubble, dos seus feitos marinheiros e de notável guerreiro durante a Segunda Guerra Mundial.
          A página do "Lucky Lou" USS St. Louis(CL49) pode ser vista clicando aqui.